Uma interessante análise referente ao baixo crescimento da economia foi feita recentemente pela equipe técnica da Revista Economia e Tecnologia (RET) em sua publicação Análise Mensal de março deste ano (aqui).
Em seu artigo, os autores abordam o baixo crescimento como consequência das políticas econômicas de combate a inflação. A análise é enfática, como pode ser visto abaixo nesta passagem retirada do texto:
"o baixo crescimento de 2011 é resultado do arsenal de política macroeconômica antiinflação em seu todo, e com consequências graves para o crescimento. Taxas de juros elevadas, restrição fiscal e cambio valorizado pró importação derrubaram a taxa de crescimento para 2,7%."
Na segunda parte da publicação, relacionada à anterior, o enfoque é na inflação atual, em suas causas e consequências. Nele, esboça-se um conceito de "inflação estrutural" distinto às indexações da economia, referente às "mudanças distributivas" na sociedade brasileira. A frase conclusiva da análise mostra uma visão peculiar do papel da inflação vigente no Brasil.
“Esta é uma inflação maligna(sic), que não assusta. Combatê-la seria privar uma parcela da sociedade do acesso à um nível maior de bem-estar.”A seguir procura-se analisar alguns pontos da argumentação promovida pela RET, de forma aprofundar o debate acerca dos temas abordados.
Pela análise dos autores, a crise externa não teria influência sobre o baixo crescimento, uma vez que as principais causas da estagnação econômica no Brasil ocorrida em 2011 seriam o baixo consumo do governo e o aumento nas importações. No entanto, pouco valor se dá no impacto da crise sobre as exportações brasileiras, e pouca ênfase há na guerra comercial cuja tendência é forçar o aumento de importações.
Os autores também afirmam que o governo, no final de 2011, se deu conta de que "errou na mão" no combate à inflação, daí resultando o afrouxamento da política monetária. Porém, ao que parece na realidade apenas houve uma resposta à queda da inflação acumulada em 12 meses, o que possibilitou essas alterações na condução da economia.
Outra questão que merece ressalvas é a afirmação de que os preços das commodities parecem estar voltando aos preços de 2007-2008 e, portanto, não seria uma disparada dos preços. Ignorou-se que em 2007-2008 tínhamos uma economia internacional incomparavelmente mais aquecida. Pelo gráfico abaixo mostra como a análise dos autores somente se corrobora parcialmente e à posteriori. Como vemos, de fato houve uma elevação de preços muito grande até a metade de 2011. Por um lado, essa distorção é derivada da crise e tem impacto certamente na inflação, como vimos no período de irrupção da crise mundial. Por outro lado, desde o pico de meados de 2011 e sua estabilização fica fácil desestimar a hipótese de "corrida de preços", mas apenas ex-post. O Banco Central já percebeu esta tendência em agosto, alterando a política econômica assim que não se confirmou a hipótese de corrida de preços continuada. Talvez se a política monetária tivesse continuando com elevação da taxa de juros até março de 2012, fosse justificado este ponto da Análise Mensal.
Concordando com os autores parcialmente, em termos de preço e evolução do índice de commodities, o cenário atual parece mais de "fio de navalha", e podemos ter à frente outro abismo com queda dos preços internacionais, o que seria advindo de um recrudescimento da crise internacional, talvez agora com o esgotamento das políticas de ajuste duro na União Europeia.
Porém a interpretação da evolução da taxa de inflação por uma "inflação estrutural" derivada da mudança na distribuição de renda parece muito improvável. Grandíssima parte da inflação parece grandemente associada à combinação de fatores de câmbio e preços de commodities - que os próprios autores relacionam em seu trabalho.
Índice de preços de Commoditie, 2005 = 100, inclui tanto combustíveis e não combustíveis
Fonte:FMI apud http://www.indexmundi.com/commodities/?commodity=commodity-price-index
Fonte:FMI apud http://www.indexmundi.com/commodities/?commodity=commodity-price-index
Na avaliação sobre a evolução do nível de preços, o artigo em "Análise Mensal" chega a dizer que combater essa "inflação estrutural benigna, que não assusta" seria pior para a parcela da sociedade que pouco a pouco sai da pobreza. Porém a inflação tem maior peso justamente nessa parcela da sociedade, e não combatê-la é privar que usufruam do aumento da renda em termos reais.
Além do texto
O artigo comete um equívoco, muito comum por sinal, ao comparar 2011 com 2010, assim como era um erro comparar 2010 com 2009. Em 2010 tivemos um excelente crescimento de 7,5%, mas se considerarmos que em 2009 não crescemos nada e analisarmos uma média dos dois anos, não nos afastamos da média dos últimos anos de 3,5% a.a. Assim como 2,7% parece muito pouco em relação a 2010, mas também não se afasta tanto da média de decenal de 3,6%, e afinal estamos num contexto de crise mundial. Não que 3,5% seja algo de se vangloriar, mas temos que levar em conta a realidade brasileira e todos os problemas e dificuldades em implantar políticas de médio/longo prazo no país, sempre cientes de que poderíamos estar indo bem melhor. E tomar cuidado com o efeito China/India ao fazer comparações com o crescimento mundial.
Um assunto que sobressai da reflexão sobre a política econômica, crescimento e inflação é como há um descompasso e contradição entre a política monetária atualmente desenvolvida, enfocada unicamente na variação de curto prazo dos preços, e o combate à inflação no médio ou longo prazo.
O combate à inflação é importante e indispensável, mas como alvo de política econômica deve envolver objetivos de curto e longo prazos. O artigo ora debatido critica unicamente a política econômica de combate à inflação, porém não identifica fatores de fundo ou políticas alternativas.
Elementos para uma nova abordagem no combate à inflação
Como alternativa, nos parece que a gestão cambial deveria incluir-se abertamente no rol de ferramentas para controle de curto ou médio prazo da inflação. Uma sugestão possível seria aproveitar o próximo movimento de queda internacional de preços para uma desvalorização maior da taxa de câmbio, com intuito de ganhar margem de manobra em níveis que não comprometam a competitividade exportação industrial.
Por outro lado, o ataque aos gargalos da oferta da economia deveria ser abertamente defendido também pelo seu resultado natural de controle do nível de preços no médio e longo prazos. Nosso sistema de transportes está defasado há décadas, e, também, a falta de mão-de-obra qualificada já é limite evidente, sendo importantíssimo o investimento em educação. Há elementos da política fiscal que deveriam ser priorizados com esse sentido também.
Em suma, a "sacralização" da abertura de capitais e de câmbio livre e da interpretação da causa principal da inflação ser de demanda e por gastos do governo nos parecem miopias malignas a serem combatidas.
Elementos para uma nova abordagem no combate à inflação
Da reflexão feita, parece importante indicar em nossa análise as principais causas e melhores meios de combate à inflação recente no país.
Corroborando e amplificando a importância dada por "Análise Mensal", nos parece que a evolução da taxa de câmbio e dos preços das commodities são muito importantes na determinação da variação de curto prazo dos preços no país.
A estes fatores, deveríamos adicionar a indexação, os gargalos de oferta e a bolha imobiliária.
O primeiro refere-se aos reajustes automáticos ou semi-automático ainda presentes na economia para alguns preços. É o caso de aluguéis, contas por serviços públicos como luz, água, telefone, outros serviços públicos privatizados como transporte. Muitas vezes o índice de inflação utilizado é o IGP da FGV, e este sabidamente transmite mais efeitos de variação cambial (mais um efeito indireto para pass-through).
Gargalos de oferta são em particular para o Brasil agora os gargalos de infraestrutura logística - muito comentado - mas também aos gargalos na oferta de mão-de-obra, em particular a qualificada.
Relacionamos também a bolha imobiliária pois a nosso ver esta junto aos gargalos são responsáveis por repasses de custos e preços ao setor de serviços, identificado pela RET como grande responsável pelo aumento recente do nível de preços. Sobra dizer também como fluxos de capital externo aquecem este mercado ampliando o motivo especulativo (Vejam a reportagem no Wall Street Journal sobre o efeito do controle cambial no mercado imobiliário argentino, ao final de 2011, por exemplo).
O sistema de metas de inflação, ao se restringir a alterar taxas de juros e, mais importante, deixar tudo o mais intocado da arquitetura de regras econômicas, não é o mais eficaz, algo em que concordamos bastante com o boletim debatido. Isso se deriva da demora da transmissão de mudanças na taxa de juros e evolução, por um lado, mas também por centrar-se exclusivamente no curto prazo da taxa anual de inflação. Dessa forma, exageros ou falta de atitudes no grau suficiente são constantes, explicando por que muitas vezes os limites da meta parecem o centro da mesma.Como alternativa, nos parece que a gestão cambial deveria incluir-se abertamente no rol de ferramentas para controle de curto ou médio prazo da inflação. Uma sugestão possível seria aproveitar o próximo movimento de queda internacional de preços para uma desvalorização maior da taxa de câmbio, com intuito de ganhar margem de manobra em níveis que não comprometam a competitividade exportação industrial.
Por outro lado, o ataque aos gargalos da oferta da economia deveria ser abertamente defendido também pelo seu resultado natural de controle do nível de preços no médio e longo prazos. Nosso sistema de transportes está defasado há décadas, e, também, a falta de mão-de-obra qualificada já é limite evidente, sendo importantíssimo o investimento em educação. Há elementos da política fiscal que deveriam ser priorizados com esse sentido também.
Em suma, a "sacralização" da abertura de capitais e de câmbio livre e da interpretação da causa principal da inflação ser de demanda e por gastos do governo nos parecem miopias malignas a serem combatidas.
Caio Luca Costa e Rodrigo Borges
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